Montagem e comunicação fragmentadas

21 de maio de 2024

Quem nasceu na década de 80 e já teve algum Pentium* na vida provavelmente se lembra de um processo chamado desfragmentação do disco. Consistia num processo demorado, praticamente um exercício de fé de que com a tal desfragmentação o computador ficaria mais rápido. Embora, na prática, a experiência do usuário não melhorasse tanto, a lógica da coisa era organizar os dados de forma contínua. Isso porque na hora de gravar as músicas que você ouvia no seu Winamp, por exemplo, os dados eram armazenados em setores fragmentados, não sequenciais, numa aparente desordem.

Com o tempo os HDs se modernizaram e desfragmentar o disco perdeu o sentido. Os SSDs de hoje em dia utilizam uma outra lógica de gravação, alocando os dados de uma forma relativamente contínua, entregando performance, paz e velocidade ao usuário.

O que é bastante curioso é que se nossa mente fosse um HD, nossas memórias seriam armazenadas com a obsoleta tecnologia, de forma completamente fragmentada. Por algum tempo a ciência acreditou que nossas lembranças eram armazenadas em determinado setor do cérebro. Hoje a visão mais aceita é que a memória é fragmentada e a lembrança de qualquer coisa percorre um caminho, uma rota neural que acessa dados em várias partes desse “disco” cinzento e nem tão rígido que chamamos de cérebro. Qual era a logomarca do ICQ? Você não se lembra da nostálgica florzinha verde sem percorrer uma rota de outros dados, e possivelmente, de outras memórias que acabam sendo indiretamente acessadas nessa consulta. É possível que para você se lembrar da VARIG, uma série de outras lembranças precisem ser acessadas (ainda que você não perceba todas as consultas que foram feitas nesse imenso banco de dados que compõe suas memórias). Essa suposta aleatoriedade permite dizer que se você por alguma razão for capaz de esquecer “bomxibomxibombombom”, isso pode realmente inviabilizar uma outra memória sua. Isso caso, de alguma forma, o hit musical esteja na rota neural dessa lembrança. Tal como os antigos HDs, não há nenhuma linearidade ou continuidade no arquivamento das nossas memórias. E nada disso é motivo para desespero, a coisa costuma funcionar bem assim. As plantas, inclusive, utilizam uma outra lógica de armazenamento de suas memórias, também descentralizada, a partir de uma arrojada tecnologia que abre mão, inclusive, de um cérebro para tal fim, como brilhantemente comprovaram o insone botânico francês René Desfontaines e a arbustiva e dormideira Mimosa Pudica.**

Editar um vídeo envolve acessar um extenso material bruto, selecionar o que é mais significativo e criar ordenamentos e conexões que produzam sentidos para o público. Uma narrativa audiovisual nunca se esgota numa descrição textual objetiva. Assim como uma memória, é também um caminho, uma rota de imagens e sons potencialmente capazes de comunicar uma verdadeira infinitude de possibilidades. Não existe um comercial de tênis que foi tão bom que, exclusivamente em função dele, todas as pessoas passaram a reconhecer excelência, performance, sucesso, perseverança e habilidade na tal marca esportiva em questão. Talvez a lógica fragmentada das nossas memórias estabeleça também que um trabalho de comunicação difuso, transmidiático e presente em várias interfaces da experiência do usuário seja de fato a rota mais provável para que seu público se conecte com sua marca. Comunicar envolve uma trama complexificada pelo repertório cultural e a vivência de cada um. Mas há estratégias extremamente eficientes para isso. E esteja certo de que vídeos (sejam eles vídeos institucionais, vídeos publicitários, videocases, vídeo-conceitos e vídeos de coberturas de eventos) têm protagonismo nesse cenário.

* ancestral de um computador

**https://www.nexojornal.com.br/especial/2019/08/19/as-plantas-lembram-veem-se-movem-e-se-comunicam

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